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Prof. Julia Farias

Especialista em Alfabetização, com experiência na educação há quase 20 anos.
Alfabetização contextualizada e respeito aos saberes do estudantes.

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A dependência da imagem da máscara no fundo da consciência

Como professora, costumo dizer que tenho cidadania dupla, sou cidadã comum e também profissional na formação de cidadãos. Dupla responsabilidade. Por isso, tanto na docência quanto na formação de professores e professoras, considerar a diversidade e a heterogeneidade das turmas é obrigatório. Caso contrário, minha cidadania dupla é falha. 

Para não cair no perigo da história única¹, também tenho estudado mais sobre a cultura afro-brasileira e seus muitos desdobramentos. E é um breve ensaio sobre isso que apresento aqui e reflito sobre o meu lugar, em constante deslocamento (não entro especificamente na lei 10639 de 2003, porque já está aí há um bom tempo e a sua implementação depende desse nosso lugar). 

Tendo como tema basilar as epistemologias negras, pretendo neste texto explicitar a necessidade de uma intensificação de estudos antirracistas da minha parte que, sendo branca, preciso sair diariamente do meu lugar histórico de conforto, embora consciente, para o aprofundamento sobre a urgente reparação aos grupos prejudicados por estruturas hegemônicas do passado (e do presente).

A busca memorialística e as (não) surpresas dos resultados

A busca memorialística de aspectos históricos aprendidos na escola, mais especificamente, no ensino fundamental, no período entre meados dos anos 1990 e os idos de 2004, parece ganhar uma proporção assustadora, do ponto de vista de uma pessoa branca, cada vez que adentra e escuta outras vozes da história, e que nem de longe sentiu ou sentirá os dissabores de efeitos tampouco de impactos de um racismo estrutural em sua experiência de vida.

Se, cada vez mais, está dada a consciência de que se produzia, na época, uma história “didática”, tal como visão eurocêntrica, o fato não parece proporcionalmente menos estarrecedor, ao aprofundar versões não contadas ou recontadas, para quem nunca vivenciou qualquer sensação de apagamento histórico em sua raíz².

Descobrir, por exemplo, Maria Firmina dos Reis, com sua força desafiadora e marcante, em um contexto estranho às suas possibilidades de ser quem é, inspira-se pela ousadia e coragem, reconhecidas a partir da leitura do prólogo da sua obra Úrsula. Entretanto, tal alimento pode não se deglutir ainda completamente, talvez pela mea-culpa de um lugar de branquitude³, mesmo que incomodado, talvez pela emergência de se distanciar desse lugar. À essa sensação soma-se, ou perturba mais, a análise da obra Monumento à voz da Anastácia (Yhuri Cruz, 2019) que propõe o desvencilhamento ao que os resultados da busca memorialística das “aprendizagens” insiste em estabelecer como legítimo.

Anastacia escravizada
Crédito e fonte da imagem: MPA Movimento de Pequenos Agricultores https://mpabrasil.org.br/noticias/anastacia-simbolo-da-via-crucies-das-mulheres-negras-da-escravidao-aos-dias-atuais/

A dependência da imagem da máscara de ferro usada por Anastácia, reproduzida como representação dos processos escravagistas, disputa agora com a obra de Yhuri Cruz, que poderá funcionar como um dispositivo que estimulará a deglutição dificultada, um espaço que precisa ser explorado e desenvolvido, uma vez que é preciso transformar a produção didática, de um tempo não muito distante, já que “a vida das pessoas negras não começam a partir da escravidão”, como disse a professora doutora Calila das Mercês⁴.

Anastacia livre
Crédito e fonte da imagem: YHURI CRUZ, Rio de Janeiro, 1991 https://projetoafro.com/artista/yhuri-cruz/

¹ Referência à obra de Chimamanda Ngozi Adichie.

² Mesmo tendo sofrido, quando criança, situação xenofóbica por conta da cor da pele de minha mãe e da região de origem de  meus pais, carrego a consciência de que tal vivência não se pesou, nem pesará, como acontece historicamente no cotidiano das pessoas negras.

³ “Os europeus, brancos, foram criando uma identidade comum que usou os africanos negros, como principal contraste. A natureza desigual dessa relação permitiu que os brancos estipulassem e disseminassem o significado de si próprios e do outro através de projeções, exclusões, negações e atos de repressão”. Cida Bento em O pacto da branquitude.

⁴ Informação verbal da professora doutora Calila das Mercês na aula 01 – introdução ao curso, da Disciplina Escrevivência e outras epistemologias afro-brasileiras: partilhas entre literatura, educação e arte em 12 agos. 2025, do programa de Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação da USP ministrada pela mesma e pela professora doutora Iracema Nascimento.

Referências

ADICHIE, C. N. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

CORRÊA, Michele. MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores. Anastácia: símbolo da via crucies das mulheres negras, da escravidão aos dias atuais. 15 mai. 2018. Disponível em: https://mpabrasil.org.br/noticias/anastacia-simbolo-da-via-crucies-das-mulheres-negras-da-escravidao-aos-dias-atuais/ . Acesso em 10 fev. 2026. 

CRUZ, Yhuri. Monumento à voz de Anastácia. Projeto Afro: plataforma afro-brasileira de mapeamento e difusão de artistas negros/as/es. 2019. Disponível em: https://projetoafro.com/artista/yhuri-cruz/. Acesso em: 14 ago. 2025. 

FARIAS, Erika. Pesquisadora explica conceito de branquitude como privilégio estrutural. Agência Fiocruz de notícias: Ciência e saúde pela vida (CCS/Fiocruz). 17 mai. 2019. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/pesquisadora-explica-conceito-de-branquitude-como-privilegio-estrutural. Acesso em: 15 ago. 2025.

MARIA Firmina dos Reis. Literafro: o portal da literatura afro-brasileira. Femininos. 20 out. 2024. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/322-maria-firmina-dos-reis. Acesso em: 14 ago. 2025. 

PERSONALIDADE Negra – Maria Firmina dos Reis. Fundação Cultural Palmares. 19 set. 2014 [31 out. 2023]. Disponível em: https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/personalidade-negra-2013-maria-firmina-dos-reis. Acesso em: 14 ago. de 2025.

ÚRSULA. Literatura Brasileira: textos literários em meio eletrônico. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  [s.d.]. Disponível em: https://literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=140871. Acesso em: 14 ago. 2025.  
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