A dependência da imagem da máscara no fundo da consciência
Como professora, costumo dizer que tenho cidadania dupla, sou cidadã comum e também profissional na formação de cidadãos. Dupla responsabilidade. Por isso, tanto na docência quanto na formação de professores e professoras, considerar a diversidade e a heterogeneidade das turmas é obrigatório. Caso contrário, minha cidadania dupla é falha.
Para não cair no perigo da história única¹, também tenho estudado mais sobre a cultura afro-brasileira e seus muitos desdobramentos. E é um breve ensaio sobre isso que apresento aqui e reflito sobre o meu lugar, em constante deslocamento (não entro especificamente na lei 10639 de 2003, porque já está aí há um bom tempo e a sua implementação depende desse nosso lugar).
Tendo como tema basilar as epistemologias negras, pretendo neste texto explicitar a necessidade de uma intensificação de estudos antirracistas da minha parte que, sendo branca, preciso sair diariamente do meu lugar histórico de conforto, embora consciente, para o aprofundamento sobre a urgente reparação aos grupos prejudicados por estruturas hegemônicas do passado (e do presente).
A busca memorialística e as (não) surpresas dos resultados
A busca memorialística de aspectos históricos aprendidos na escola, mais especificamente, no ensino fundamental, no período entre meados dos anos 1990 e os idos de 2004, parece ganhar uma proporção assustadora, do ponto de vista de uma pessoa branca, cada vez que adentra e escuta outras vozes da história, e que nem de longe sentiu ou sentirá os dissabores de efeitos tampouco de impactos de um racismo estrutural em sua experiência de vida.
Se, cada vez mais, está dada a consciência de que se produzia, na época, uma história “didática”, tal como visão eurocêntrica, o fato não parece proporcionalmente menos estarrecedor, ao aprofundar versões não contadas ou recontadas, para quem nunca vivenciou qualquer sensação de apagamento histórico em sua raíz².
Descobrir, por exemplo, Maria Firmina dos Reis, com sua força desafiadora e marcante, em um contexto estranho às suas possibilidades de ser quem é, inspira-se pela ousadia e coragem, reconhecidas a partir da leitura do prólogo da sua obra Úrsula. Entretanto, tal alimento pode não se deglutir ainda completamente, talvez pela mea-culpa de um lugar de branquitude³, mesmo que incomodado, talvez pela emergência de se distanciar desse lugar. À essa sensação soma-se, ou perturba mais, a análise da obra Monumento à voz da Anastácia (Yhuri Cruz, 2019) que propõe o desvencilhamento ao que os resultados da busca memorialística das “aprendizagens” insiste em estabelecer como legítimo.
A dependência da imagem da máscara de ferro usada por Anastácia, reproduzida como representação dos processos escravagistas, disputa agora com a obra de Yhuri Cruz, que poderá funcionar como um dispositivo que estimulará a deglutição dificultada, um espaço que precisa ser explorado e desenvolvido, uma vez que é preciso transformar a produção didática, de um tempo não muito distante, já que “a vida das pessoas negras não começam a partir da escravidão”, como disse a professora doutora Calila das Mercês⁴.
¹ Referência à obra de Chimamanda Ngozi Adichie.
² Mesmo tendo sofrido, quando criança, situação xenofóbica por conta da cor da pele de minha mãe e da região de origem de meus pais, carrego a consciência de que tal vivência não se pesou, nem pesará, como acontece historicamente no cotidiano das pessoas negras.
³ “Os europeus, brancos, foram criando uma identidade comum que usou os africanos negros, como principal contraste. A natureza desigual dessa relação permitiu que os brancos estipulassem e disseminassem o significado de si próprios e do outro através de projeções, exclusões, negações e atos de repressão”. Cida Bento em O pacto da branquitude.
⁴ Informação verbal da professora doutora Calila das Mercês na aula 01 – introdução ao curso, da Disciplina Escrevivência e outras epistemologias afro-brasileiras: partilhas entre literatura, educação e arte em 12 agos. 2025, do programa de Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação da USP ministrada pela mesma e pela professora doutora Iracema Nascimento.
