Como descobri a leitura?
Ler tornou-se hábito e paixão com o passar do tempo: essa é a única certeza, pois não tenho lembranças de situações iniciais de leitura na escola e apenas duas me vêm à memória, ambas dentro de casa. Curiosamente, tenho uma versão de Meu Pé de Laranja Lima, rabiscado, mas não consigo lembrar quando ele entrou na minha vida.
Mamãe era empregada doméstica e sua patroa, ao voltar de viagem da Disney, trouxe para mim uma caixinha musical com contos clássicos, que a guardo até hoje. Não sei se a leitura desses contos foram, em primeiro contato, feitas por mim ou por algum adulto de casa, mas sei que decorei todas as histórias, que seguiram por anos, sendo, que eu me lembre, minha oportunidade diária de leitura desse tipo de portador em casa.
Anos depois, ganhei um livro de alguém a quem meu pai prestou serviços como motorista. Ainda o guardo, um tanto surrado: A Caminho da Escola. Ao abri-lo hoje para escrever essa memória, vejo na dedicatória a data 12/08/1997, cuja coincidência me emocionou (esse texto foi escrito pela primeira vez em 12/08/2025). Desta obra, os movimentos de leitura já eram meus e decorei a narrativa lhe dando um ritmo, aproveitando as rimas e a sensação de movimento que as ideias provocam no decorrer das páginas. Ao retomar a leitura hoje, ainda “canto” cada parte, como antigamente.
As lembranças com gibis são muito remotas e não sei se existiram mesmo ou se eu as criei com o tempo. Mas, colando de Ricardo Azevedo, o tempo é uma roda que gira sem breque nem eixo, e já na faculdade de Pedagogia, lembro-me da disciplina de Literatura Infantil, mais focada em aspectos teóricos e históricos. Não tivemos a oportunidade de conhecer algum autor em específico, exceto algo sobre Monteiro Lobato, ou de sermos provocados/as a buscar a diversidade das obras destinadas ao público infantil e juvenil disponível na época.
Na escola, como docente, foi onde conheci tais obras. A primeira experiência foi em uma escola privada e era bem capaz de meus alunos terem mais repertório que eu na época. De lá para cá, fui buscando por conta própria, estudando o repertório e me tornando uma leitora voraz. Frequentadora (e apaixonada) por bibliotecas públicas e curiosa a respeito da formação leitora das pessoas.
Fico me perguntando que, se a gente parte da perspectiva de que leitura é construção de sentidos, se houve alguma oportunidade na minha escolarização que tenha sido significativa e nesse caminho; ou se as junções descontextualizadas de letras e sílabas tomaram esse lugar e, mais tarde, leituras obrigatórias para provas constituíram minha experiência leitora escolar, apagando-se tão logo após o objetivo [avaliativo] fosse cumprido. Não me lembro e, inclusive, vira e mexe, circulo nas indagações de Bourdieu quando faz questionamentos relacionados à reflexão que se faz (ou não) durante o ato de ler sobre o próprio ato de ler e que tipos de movimentos vivi com textos na escola, me questiono: para mim, quando isso tudo realmente começou?
Hoje? Bom, hoje, se deixar, leio o dia todo e contamino a quem mais encontrar por aí. Agora mesmo deixei na porta de uma biblioteca comunitária (em uma geladeira na rua) um convite para a I Maratona brasileira de leitura e torço para que as experiências leitoras sejam as mais significativas desde a mais tenra idade.



