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Prof. Julia Farias

Especialista em Alfabetização, com experiência na educação há quase 20 anos.
Alfabetização contextualizada e respeito aos saberes do estudantes.

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A genialidade de Marina Colasanti na formação leitora do professor e da professora

Entre camadas de sentido, inferência e repertório

Escrevo este texto movida por duas forças que, para mim, são inseparáveis: a potência formativa de uma experiência concreta com professores da escola pública e a admiração profunda por uma autora cuja obra nunca se esgota em uma única leitura. Marina Colasanti é dessas escritoras que nos convocam a ler devagar, a reler, a desconfiar do óbvio e a habitar as entrelinhas. E é exatamente por isso que sua obra se mostrou tão fecunda na formação leitora de professores e professoras dos anos iniciais.

Este post nasce a partir de uma experiência de formação continuada realizada com professores e professoras do 2º ano do Ensino Fundamental de redes públicas municipais, cujo foco foi a ampliação do repertório literário docente e a qualificação da formação leitora. A proposta dialogou diretamente com os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), que evidenciam o baixo índice de leitura no país, inclusive entre adultos responsáveis pela mediação da leitura na escola.

A Literatura e a formação de leitores

Ao longo de quatro meses, os encontros formativos foram organizados a partir da leitura de uma obra da autora por encontro. O percurso incluiu diferentes gêneros — conto, miniconto, crônica e uma adaptação em quadrinhos (por Marlon Tenório) —, o que permitiu explorar a diversidade de formas e linguagens presentes na produção dos autores.

As práticas de leitura propostas buscavam ir além do uso funcional tradicional do texto literário. Realizamos leituras em voz alta, ora contínuas ora colaborativas, antecipações de sentido, discussões sobre escolhas lexicais e recursos expressivos, além de comparações entre textos originais e suas adaptações. Cada leitura era acompanhada de conversas sobre como aquelas experiências poderiam (ou não) se desdobrar em práticas pedagógicas com as crianças.

Inferência, camadas de sentido e mediação

Um eixo central da formação foi a reflexão sobre as perguntas que fazemos diante dos textos. A partir da leitura das obras, discutimos como elaborar questões que convocassem habilidades mais complexas, especialmente a inferência.

Esse movimento se articulou à análise crítica de materiais didáticos e instrumentos de avaliação externa, evidenciando a predominância de questões que se restringem à localização de informações explícitas e a necessidade de explorar camadas mais profundas de leitura com os estudantes. A literatura provocativa – em todos os sentidos – da autora foi providencial. Marina é Marina!

Seguir um autor: um gesto formativo e uma prática potente em sala

Um dos deslocamentos mais significativos observados ao longo da experiência foi o fortalecimento do vínculo dos professores e das professoras com a leitura literária. Muitos passaram a indicar obras da autora, a reconhecer a literatura como espaço de formação sensível e a construir propostas de leitura mais autorais, elaboradas e menos prescritivas, rompendo com usos tradicionalmente funcionais.

A escolha por “seguir um autor” revelou-se, assim, um gesto pedagógico potente: permitiu aprofundar o repertório, reconhecer marcas de estilo, estabelecer relações entre textos (inclusive os não-verbais) e, sobretudo, formar leitores e leitoras mais atentos/as e disponíveis — professores e professoras e, por consequência, crianças.

Para além da “funcionalidade” – da prática tradicional

Concluo reafirmando uma convicção que atravessa minha prática como formadora: formar professores e professoras leitores/as exige experiências que integrem teoria, vivência estética e reflexão crítica sobre os usos da literatura na escola. A obra de Marina Colasanti nos lembra, com delicadeza e rigor, que ler não é apenas responder perguntas, mas aceitar o convite de pensar, sentir e imaginar.

Que a literatura continue sendo, na formação docente, um espaço de encontro, estranhamento e transformação.

Julia e Marina

Aqui, Marina e eu em um lindo encontro.

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