GARGALOS DA ALFABETIZAÇÃO NO BRASIL

Gargalos da alfabetização: avaliações demais e atividades padronizadas afetam a aprendizagem– Reportagem 3
Na série sobre os Gargalos da Alfabetização, também pude contribuir com a terceira reportagem falando sobre dois assuntos que merecem atenção e discussão – excesso de avaliações e prioridade em “atividades prontas” padronizadas na alfabetização.
Compartilho aqui alguns pontos que destaquei na entrevista e que considero fundamentais para repensarmos nossas práticas.

Não é só sobre técnica ou método
Insisto na minha preocupação com propostas pedagógicas que desconsideram a realidade e os saberes prévios das crianças, pois
“Ver a alfabetização como uma técnica minimiza toda a sua real complexidade. Os estudantes estão imersos em um mundo de cultura da escrita, mas quando chegam à escola, por vezes, devem esperar a semana da sílaba com a letra ‘P’ para discutir a escrita de ‘Parabéns’.”
A importância de planejar a partir do território
Também reforço que o planejamento docente deve estar alinhado ao território, à cultura local e às experiências das crianças. Por isso, sugeri projetos didáticos que valorizem esses saberes:
- Projetos com gêneros textuais orais regionais, como cantigas de roda, narrativas populares e parlendas, envolvendo contextualização, pesquisa e produção textual, podendo culminar em apresentações para outras turmas ou até um sarau ou slam.
- Projetos que recuperem receitas de família, convidando familiares a participarem e resultando em cadernos ou livros de receitas, fortalecendo vínculos, memórias e múltiplas práticas de leitura e escrita.
Avaliações: quando o excesso esvazia a aprendizagem
Outro ponto que trouxe na reportagem foi o excesso de avaliações, que muitas vezes ocupa o tempo que poderia ser dedicado a propostas aprofundadas:
“Com tantas frentes em prol da educação e da alfabetização, as avaliações externas e internas têm inundado a rotina dos professores. Já escutei que são tantas provas e preparações para elas que parece estar se vivendo em prol delas e não necessariamente em prol da aprendizagem.”
Ressalto, ainda, que o problema não é a avaliação em si, mas a frequência e o volume. Avaliar é essencial para dosar e replanejar, mas, quando se tornam excessivas, podem gerar pressão, sobrecarga e pouca construção de sentido para o estudante.
Caminhos possíveis
Finalizei indicando a importância de construir soluções em parceria:
“Vejo como possibilidade uma troca da equipe gestora das unidades escolares com a equipe técnica do município, que, por sua vez, troque com o secretário e pense em possibilidades de conversas com as esferas maiores.”

