Leitura, escrita e mídias digitais
No fim de junho, pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (a FEUSP), tive a alegria de participar da formação de estudantes da graduação em Letras, em uma aula realizada no processo de monitoria da faculdade, sob a supervisão da minha orientadora, Elaine Vidal.
Conversamos sobre tecnologias digitais, leitura, escrita e formação docente. E saí da aula com uma inquietação que tem me acompanhado há algum tempo.
Vivemos um momento curioso: enquanto as tecnologias digitais ampliam as possibilidades de produzir, compartilhar e construir conhecimento, a plataformização da educação tem, muitas vezes, produzido o movimento contrário, engessando práticas pedagógicas, reduzindo a autonomia docente e transformando o ensino em uma sequência de tarefas previamente definidas.
É um paradoxo que merece nossa atenção.
Se ensinar a ler e a escrever significa garantir o acesso dos estudantes às culturas do escrito, precisamos perguntar: quais são as culturas do escrito de hoje? Como as pessoas produzem sentidos, leem, escrevem, pesquisam, interagem e participam socialmente em um mundo atravessado pelas tecnologias digitais?
Essas perguntas tornam a formação de professores ainda mais desafiadora. Afinal, falar sobre tecnologias com quem já nasceu imerso nelas exige ir além das novidades e das ferramentas. Nosso papel não é apresentar “o aplicativo da vez”, mas construir espaços de reflexão sobre os usos da tecnologia, seus limites, suas potencialidades e, sobretudo, sobre o lugar do professor nesse cenário.
Foi uma conversa potente, que me lembrou por que continuo acreditando na universidade como espaço de diálogo, pesquisa e formação crítica.
Seguimos aprendendo sempre e pensando: em tempos de inteligência artificial, plataformas e algoritmos, talvez o maior desafio da escola continue sendo o mesmo: formar leitores e escritores capazes de interpretar o mundo — e também as tecnologias que o atravessam.